8# MUNDO 21.1.15

     8#1 A RESPOSTA DA LIBERDADE
     8#2 COMO SO FORMADOS OS JIHADISTAS

8#1 A RESPOSTA DA LIBERDADE
A Frana reage aos atos de violncia de 7 de janeiro com demonstraes pblicas histricas e o endurecimento no combate ao terror

S RUAS - Milhes de franceses tomaram a capital francesa para mostrar que a liberdade no teme o terror

No lugar do medo e do recuo, a coragem e a tomada das ruas. Na semana que passou, a Frana deu mostras inegveis de que se recuperou dos atentados  sede do jornal satrico Charlie Hebdo e a um supermercado judaico, alm dos trs dias de perseguies policiais, que deixaram 17 mortos, com a liberdade como resposta. Mais de 3,7 milhes de pessoas saram s ruas de todo o pas em solidariedade s vtimas. Liderada pelo presidente francs, Franois Hollande, a passeata histrica de Paris no domingo 11, reuniu ex-presidentes e grandes lderes mundiais, como a chanceler alem, Angela Merkel, e o primeiro-ministro britnico, David Cameron. Estiveram presentes tambm figuras antagnicas no cenrio mundial, como o premi israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. A ausncia do presidente americano, Barack Obama, foi amplamente criticada pela imprensa internacional, mas, na sexta-feira 16, o secretrio de Estado, John Kerry, o representou num encontro com o presidente Hollande.

Os sobreviventes do Charlie Hebdo tambm desafiaram o medo. Na capa da edio especial ps-atentado, uma caricatura do profeta Maom derramando uma lgrima e segurando um cartaz onde estava escrito o lema dos manifestantes, Eu sou Charlie, sob a manchete tudo est perdoado. O jornal, com cinco milhes de exemplares disponveis em seis idiomas, se esgotou com facilidade nas bancas da capital francesa. A tiragem habitual  de 60 mil unidades.

Ainda assim, o alerta mximo contra o terrorismo continuou ligado no continente durante a semana. Na quinta-feira 15, policiais da Blgica mataram dois extremistas suspeitos de planejar atentados em grande escala no pas e prenderam mais 13 pessoas. Na Alemanha, dois homens de origem turca foram detidos pelo suposto envolvimento num atentado na Sria e outro homem pela suposta ligao ao grupo fundamentalista Estado Islmico. A Frana, por sua vez, deteve ao menos 12 pessoas acusadas de fornecer armas e veculos aos criminosos e endureceu uma lei contra o discurso favorvel ao terror. Seguindo a nova legislao, mais de 100 pessoas esto sendo investigadas e 54 foram presas desde os ataques  entre elas, o comediante Dieudonn MBala MBala, acusado de apologia ao terror. De acordo com o jornal americano The New York Times, um homem de 28 anos de origem tunisiana foi condenado a seis meses de cadeia depois de expressar apoio aos terroristas na frente de uma delegacia em Bourgoin-Jallieu, distrito prximo  cidade de Lyon. O debate sobre os limites da liberdade de expresso est aberto.

Enquanto isso, na Nigria - Terroristas do boko haram promovem massacre mais letal da histria

O grupo radical islmico Boko Haram, o mesmo que sequestrou 276 meninas na Nigria no ano passado, voltou a atacar. Na semana passada, foram divulgadas imagens do que a Anistia Internacional classificou como o massacre mais letal da histria da milcia. Cerca 
 de duas mil pessoas foram mortas em dois ataques nas cidades de Baga e Doron Baga, no nordeste do pas. Para o Exrcito nigeriano, o nmero  bem menor  150 , mas satlites capturaram a devastao do local que teve mais de 3.700 construes destrudas. Pelo menos 16 assentamentos foram incendiados e 20 mil pessoas deixaram suas casas. O objetivo dos extremistas  estabelecer um Estado Islmico na regio. Para isso, s em 2014, estima-se que tenham assassinado mais de dez mil pessoas, inclusive mulheres e crianas.


8#2 COMO SO FORMADOS OS JIHADISTAS
A trajetria de radicalizao dos irmos Kouachi, responsveis pelo atentado terrorista em Paris,  comum a muitos outros extremistas: comea num ambiente de pobreza e discriminao e se intensifica na cadeia, onde os muulmanos so maioria
Mariana Queiroz Barboza e Bruna Estevanin

ESCOLA DO TERROR - Apesar de representarem menos de 10% da populao francesa, 60% dos quase 70 mil presos nas cadeias do pas so muulmanos

Cherif Kouachi tinha vinte e poucos anos e um subemprego como entregador de pizzas quando, em 2003, no auge da Guerra ao Terror, os Estados Unidos invadiram o Iraque. Filho de argelinos, o francs morava na periferia de Paris e tinha pouco apego ao isl at conhecer o grupo liderado por Farid Benyettou, uma espcie de guru de uma mesquita prxima. Os rapazes de famlias pobres, desestruturadas e de baixa escolaridade se uniram em torno de Benyettou para conversar sobre jihad, a guerra sagrada, e os abusos do Exrcito americano no Iraque. Alguns foram para a guerra lutar contra o inimigo ocidental. Cherif estava a caminho do Oriente quando, em janeiro de 2005, foi preso pela polcia francesa. De acordo com o jornal britnico The Guardian, ele foi descrito pelos advogados responsveis pelo caso como um jovem frgil com poucas ideias polticas reais, psicologicamente manipulado por uma seita. Na poca, Cherif disse ao jri: Eu queria voltar atrs, mas estava com medo de parecer um covarde.

 na priso de Fleury-Mrogis, no sul de Paris, para onde Cherif foi mandado, que sua trajetria rumo ao extremismo encontra seu lugar, num caminho sem volta. H duas semanas, ele ficou conhecido como um dos terroristas que invadiram a redao do jornal satrico Charlie Hebdo, em Paris, matando 12 pessoas. O outro era seu irmo, Said. Os dois foram mortos pela polcia na sexta-feira 9. No perodo em que ficou preso, at 2008, Cherif conheceu Amedy Coulibaly, morto depois de assassinar quatro refns e um policial num supermercado judaico no leste de Paris, dois dias depois do atentado ao Charlie. A ao foi coordenada com os irmos Kouachi. Coulibaly tambm estava preso em Fleury-Mrogis por assalto  mo armada. L eles conheceram Djamel Beghal, recrutador da rede terrorista Al-Qaeda. Naquele ano, Beghal foi preso na Frana por conspirar um ataque  Embaixada dos Estados Unidos em Paris. Como os Kouachi, ele tambm tem origem argelina.

At o dia 7 de janeiro, esses quatro personagens faziam parte de um roteiro cada vez mais comum nos guetos muulmanos de Paris e das outras grandes cidades europeias. Suas histrias, seus fracassos, seus encontros na priso e a converso para um tipo de islamismo cada vez mais radical no so exceo. So, cada vez mais, a regra entre jovens fracassados no processo de integrao cultural e ascenso social, que encontram na religio e nos ensinamentos distorcidos do Coro a vlvula de escape para suas frustraes.

Como acontece com os negros no Brasil e nos Estados Unidos, os muulmanos so super-representados no sistema prisional francs: correspondem a 60% do total de 66 mil presos, mas no so nem 10% da populao geral. Na semana passada, o governo francs informou que 1,4 mil de seus prisioneiros tm tendncias extremistas, 152 so considerados islmicos totalmente radicais e, entre eles, 87 integram organizaes terroristas. A ministra da Justia, Christiane Taubira, aproveitou a ocasio para anunciar um plano de conteno do radicalismo nas penitencirias. A ideia  isolar os extremistas e treinar os clrigos que visitam as cadeias para ter um discurso mais moderado. A escassez desses religiosos, alis,  um dos fatores que transformam as prises em campo frtil para a leitura do Coro ao p da letra. Na Frana, h 182 clrigos muulmanos e cerca de 700 cristos, segundo a agncia Reuters.

O contexto por trs do encarceramento envolve uma parte da populao que, apesar de ter nascido na Frana e possuir a cidadania europeia, no se v integrada  sociedade ocidental. Obrigados a viver nas habitaes populares dos banlieues, nos subrbios de Paris, onde a mdia de desemprego  maior que o dobro do ndice nacional, esses franceses so, em geral, filhos ou netos de imigrantes  a maioria vem de antigas colnias como Arglia, Marrocos e Tunsia. O fluxo migratrio do incio do sculo XX levava mo de obra da frica para a Europa. Havia um entendimento entre os europeus de que essas pessoas s iriam trabalhar, a inteno nunca foi de uma ocupao permanente, disse  ISTO Demetrios Papademetriou, presidente do Instituto para Poltica Migratria (MPI, na sigla em ingls), na Europa, de Bruxelas. Mas os trabalhadores naturalmente levaram suas famlias e seus costumes. Quanto mais eles se sentiam isolados, agredidos, sem as mesmas oportunidades, mais eles se fechavam em suas comunidades e desafiavam a maioria. Segundo o MPI, para muitos franceses, os bairros com alta concentrao de islmicos e escolas segregadas funcionam como sociedades paralelas.

"A integrao fracassou, diz Mohammed ElHajji, professor de comunicao e especialista em questes migratrias e culturais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nos anos 80 e 90, os imigrantes recorreram s antenas parablicas para manter os laos com sua terra de origem. Agora a internet cumpre esse papel, diz ele, um marroquino radicado no Brasil. H dez anos vivendo em Paris, o tunisiano Nassim Touns, 31 anos, se sente ainda mais discriminado depois do atentado ao Charlie Hebdo.  como se fssemos cidados de segunda classe, disse  ISTO. Formado em comrcio internacional e economia em seu pas, Touns trabalha hoje como pintor de uma empresa subcontratada pelo Grupo Carrefour para reformar as lojas da rede varejista. Ele diz que no sai de Paris porque tem dois filhos  franceses  e que at na Tunsia  difcil encontrar emprego. Eles preferem francs-francs.

Na Frana, essa preferncia j foi medida. Um estudo de 2011 da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, concluiu que um cidado cristo de origem africana tem 2,5 vezes mais chances de ser chamado para uma entrevista de emprego do que um muulmano igualmente qualificado. Nesses casos, as pessoas com nomes tipicamente franceses tm vantagens sobre quem carrega um nome que soa islmico. Outras pesquisas j mostraram dificuldades semelhantes para os muulmanos em aluguis de imveis e vendas de carros.
 Numa sociedade em que a laicidade, que implica a separao total entre Estado e Igreja,  um valor inegocivel, o sentimento de discriminao se espalhou quando, em 2011, a Frana proibiu o uso do vu islmico e outros smbolos religiosos em locais pblicos. Para Ariel Finguerut, pesquisador do Grupo de Pesquisas Oriente Mdio e Mundo Muulmano da Universidade de So Paulo, esses elementos sociais s reforam o estigma do isl como vtima de um Ocidente opressor.

Desse ambiente, os irmos Kouachi e seu cmplice, Amedy Coulibaly, no conseguiram fugir. Eles no precisaram sair da Frana para se converter ao extremismo. Como acontece com milhares de jovens que vivem nas mesmas condies de vulnerabilidade, o discurso radical lhes ofereceu, enfim, reconhecimento e um propsito de vida. Mohammed Merah, o jovem que matou quatro judeus e trs soldados em Toulouse, no sul do pas, em 2012, tambm era um deles. Ciente disso, o governo francs est diante do desafio de repensar a maneira como lida com os fundamentalistas em seu prprio territrio, a comear pelas polticas de integrao das diversas comunidades que ali coexistem.

